Saturday, June 10, 2006

Lenda


[Fotografia por Adriano Baptista]

Desfizémos a casa com nossos desejos.

Hoje de manhã, quando acordei
já não havia o teu corpo sobre o meu,
nem vestígios dos teus dedos
nos desenhos do meu corpo;
apenas um conjunto de vincos solitários
nos lençóis brancos que me ocupavam a cama.

Sussuram-me a tua ausência pela manhã,
como quem conta um desses grandes romances
probidos pelo tempo e pelo destino,
uma história guardada pelos deuses,
perdida nos recantos da eternidade.

Os copos vazios continuavam estendidos no chão
e aquele céu estrelado que ocupara a janela,
rápido se tornou num halo de luz quente.
O teu nome ainda se escrevia em todas as paredes
como uma lenda que perdura
para ser ensinada a quem vem.

Li o bilhete que deixaste morrer em cima da mesa.

“Não temas o vazio dos lençóis,
e não ouças as mentiras que te contam.
Voltarei assim que o destino o entenda…
mas não te deixo, não te deixo nunca.”

[...]

Daniela

Posted by Daniela e Jorge at 22:54:36 | Permalink | Comments (4)

Thursday, April 20, 2006

Alma morta

 
[Fotografia por mim]

Tira-me uma fotografia.
Rouba-me o rosto negro
que a vida fez morrer na minha tez.
Arranca-me as lágrimas que
me cantam nas feridas dos lábios.

Tira-me uma fotografia
tira-me a vida, o olhar…
Tira-me tudo.
Quero vê-la; um reflexo
cruel, nítido… tão vazio.
Quero vê-la como se viam
os carvalhos da minha janela,
como se viam os teus cabelos
enrolados nos meus dedos…

Mas se os teus olhos esquecerem
o caminho para casa não
procures mais os meus.
Serão apenas meros reflexos
de uma alma morta
que não guarda mais esse amor.

Daniela

 

Posted by Daniela e Jorge at 21:02:47 | Permalink | Comments (2)

Saturday, February 25, 2006

Desencontros

[Fotografia por mim]

Quando sentires o cheiro guardado nas estórias deste livro
saberás quantas vezes morri sem o teu regresso,
deixando que o teu sabor me ferisse os lábios vazios
e que a tua imagem mordesse o mármore dourado pelo sol da manhã.

Quando leres as palavras que dobrei entre as páginas da minha existência
saberás que não guardei nenhuma estrela presa noutros abraços,
nem nenhuma rosa murcha entre doces espinhos que
me rasgaram a carne em lágrimas tão amargas quanto a tua ausência.

Quando a noite esconder as palavras que escorregam na geometria deste livro
saberás que os meus dias já não são dias
e que o tempo já não se estende nas rotas do meu corpo.

Daniela

[Sinto tanto a tua falta...]

Posted by Daniela e Jorge at 17:15:41 | Permalink | Comments (2)

Friday, February 3, 2006

Promessas mortais


[Imagem: direitos de autor por Raul Lourenço]

Sei de tempos em que o sol nascia ali.
Emoldurado nos quatro cantos da minha janela.

Eram manhãs doces, acordadas nos teus braços,
sonhadas no teu corpo.
Tantas as que se desenharam nos vincos suaves
dos lençóis e morreram no calor do teu beijo.

Sei de tempos em que o sol nascia ali. 

Sinto, ainda, o sabor do chocolate quente
e a tua voz chegar-me aos ouvidos pelo mesmo
vento que quebrou a vidraça que escondia
o meu olhar ansioso pelo teu regresso.
 

As manchas de um crepúsculo dourado
não pertencem mais a este céu
e as estrelas que escondias no corpo das árvores,
descobri serem, apenas, beijos que a chuva
ansiava entregar aos braços da terra,
promessas adiadas de um sonho de ninguém.
Tão longe do ser.
Tão perto da alma.

Sentes como tempo mudou?
Não vês que são os mesmos desejos
que corroem o mármore gelado?

Tempo… o tempo.
Sim, o tempo.

Sei de tempos em que o sol nascia ali.

Daniela

Posted by Daniela e Jorge at 21:55:03 | Permalink | Comments (6)

Thursday, December 22, 2005

A casa

As cores daquela sala apagaram-se
e nem o quadro desarrumando junto à porta
dava vida aos móveis perdidos no espaço.
O piano, lá no canto, deixou fugir as notas
que adormeceram nas pautas velhas dobradas
pelas façanhas do tempo.
A música que, ainda, cantavam ecoava no
vazio perdendo-se, depois, no parapeito
quebrado de uma janela ausente…
Tenho saudades do cheiro de chocolate quente
que invadia a sala em noites de inverno,
desviando a nossa atenção para os cobertores
guardados, durante um verão, num armário.
Tenho saudades do desenrolar da chave na fechadura
da porta que me sussurrava a tua chegada e me
fazia abandonar os cobertores enrodilhados
no meu corpo,para serem os teus braços a
envolver-me, puxando-me para o sofá.
Tenho saudades das histórias escritas nos teus lábios,
da saudade gravada no teu corpo, da tua voz a embalar-me
quando a televisão era apenas um som de fundo;
tenho saudades de chamar nossas
às memórias que ainda se escondem
nas paredes desta casa.

Daniela

[Pedaço de uma foto de augusto Peixoto]

Posted by Daniela e Jorge at 17:23:30 | Permalink | Comments (1) »

Wednesday, December 21, 2005

Destinos



As pétalas demoram-se até aos caminhos
perdidos no berço da floresta;
já nem o vento se ouve por estes recantos.
Os troncos nus das árvores soltam sussurros
apaixonados que esperam a primavera e
são tantas as palavras de amor sufocadas
pelo odor da terra molhada.
Os seus corpos contorcem-se, envolvendo
memórias centenárias que as eternidades
arrastaram para outros mundos distantes;
esse legado não pertence mais aos entes
deste recorte de vida.
O abraço do sol é uma estória que o tempo
contou noutras épocas e deixou aberta
para quem quisesse perder-se nela.
Assim, não seria tão dura a tarefa de
aquecer a alma, nem a de esquecer a dor
das feridas do tamanho da tua ausência.

Fotografia e poema - Daniela

[ Também o tempo se esqueceu de mim...]

Posted by Daniela e Jorge at 15:40:22 | Permalink | Comments (5)

Monday, December 19, 2005

Rotas

As rotas da tua ausência sempre se

escreveram na areia molhada em que me sento.

As melodias que o mar me traz são fragmentos

de cartas que o céu sempre quis entregar-lhe;

não há nada aqui.

Apenas a saudade da tua voz e a carência de ti.

Daniela

[ Imagem - Direitos de autor por Rui ]

Posted by Daniela e Jorge at 14:06:52 | Permalink | Comments (2)

Thursday, December 8, 2005

Mar eterno

As ondas rebentam lá ao fundo da praia
e nada mais me chega aos ouvidos
sem ser a triste melodia que se desenrola na areia…
O céu ergue-se carregado de lágrimas contidas
nas mãos de uma estrela que se perdeu
pelos vales negros do universo.
E ele é tão grande…
As janelas do sol, hoje, fecharam-se
num baú de nuvens cerrado pelo toque da chuva;
e os seus raios esqueceram-se do meu corpo.

Aqui, eu sou a concha que o mar não se lembrou
de embrulhar nas suas histórias de navios naufragados,
nas suas memórias de tempestades de gritos e sufocos
presos, agora, no interior de um búzio viajante.
Sou mero corpo rendido ao avanço das quatro estações
preso no relance de um desejo escondido do outro lado do mar.

Daniela

[ Pelo dia de hoje e por todos os que passámos e sonhamos passar juntos. Amo-te ]

Posted by Daniela e Jorge at 22:33:27 | Permalink | Comments (1) »

Saturday, December 3, 2005

Vincos dourados

“Quero te tanto…”

(sussurros)

Os vincos das folhas não me trazem
mais a suavidade do teu toque,
nem os vendavais me devolvem
pedaços do teu sorriso encerrados
nos cofres da eternidade.
Aquele banco lembra-me os beijos trocados
quando não havia mais nada em redor
sem ser o brilho do sol.
Traz-me tantas imagens, tantos sonhos.
Os segredos que partilhámos continuam
escondidos sob o corpo frágil de cada folha…

“Amo-te”

E ela caiu.
Rodopiando com o vento e estatelando-se sobre o chão dourado.

Daniela

Posted by Daniela e Jorge at 22:46:05 | Permalink | Comments (2)

Friday, December 2, 2005

Restos de desejos

 Dá-me uma pele branca

Um rosto pintado em tons de neve,

Dá-me um cabelo negro

desenhado pos caracóis rebeldes…

Uns olhos verdes repletos de imagens

que escorrem de um calendário velho

pertencente a outras histórias que não

as minhas…

Dá-me um corpo..

O teu…


Daniela

Posted by Daniela e Jorge at 22:19:20 | Permalink | Comments (4)