sem título
senta-te aqui, estranho.
hoje apetece-me contar-te uma vida
cheia de nadas e coisas nenhumas.
apetece-me dizer-te que já amei
e já morri por amor,
apetece-me dizer-te que por dentro
sou nada e que por fora já fui de todos.
senta-te, bebe um copo.
dá-me uns minutos do teu tempo,
se é que dele farás alguma coisa.
conta-me que da tua vida nada te sobra.
conta-me também que por dentro és pedra
e por fora já não és nada, nem ninguém.
conta-me que és mero corpo que se arrasta
ao rumo das estações lentas no tempo,
conta-me que o teu nome se perdeu em cartas
de amantes que nunca foram lidas.
diz-me tudo isto e não digas nada.
sejemos estranhos para sempre
e que de ti apenas me reste a recordação
das palavras e do fumo do teu cigarro.
daniela








