Há tantas lágrimas. Lágrimas de quem se esqueceu, lágrimas dos que perdem, dos que vencem, dos que se entregam, dos que se escondem. Existem lágrimas de amor, de ódio, de saudade. Existem lágrimas.
Hoje a fotografia era a mesma. Desprovida de rugas ou qualquer abalo do tempo; apenas vestida com a sua inocência. Num dia em que corria pelos campos escondendo a relva debaixo dos seus pés, convidando o vento para a sua dança outonal. Com ela, as folhas rodopiavam e contavam estórias aos galhos nus que prendiam o sol. Com ela, as pregas do vestido a desordenarem-se sobre as pernas macias. Com ela, os caracóis doirados a cairem-lhe nos ombros.
Nada.
Hoje, nada.
A fotografia, no entanto, era a mesma.
Existem tantos sorrisos. Sorrisos de quem chega, de quem recebe um beijo, um abraço, uma lágrima. Existem sorrisos de crer, de olhar, de sentir. Tantos sorrisos de quem regressa, de quem lembra, de quem foge e se perde. E aquela menina também se perdera na mesma fotografia, tão só e tão bela. Um pedaço de eternidade guardado num pedaço de papel com a cor do tempo nas gavetas esquecidas do quarto.
Nada.
Hoje, nada.
E a fotografia, no entanto, continuava a ser a mesma.
Existem tantas memórias. Memórias de velhos tempos que os anos cerraram noutras realidades distantes, que se fundem com o presente tão frio. Existe a pele enrugada. Os olhos nublados, a voz cada vez mais fraca e os sons soam tão baixo na mente. A cor cálida nas nuvens que cai sobre os cabelos, anunciando meras pistas de uma viagem à terra prometida.
E, no entanto, aquela fotografia traz-me a criança que eu deixei no passado.
A inocência que a vida me roubou.
Daniela