Thursday, July 27, 2006

preto e branco

Olha para o espelho!
Ele conta-te mentiras que eu já não sei contar.
Cedo, o meu mundo não será mais o teu
e as palavras que guardei para ti
estarão celadas em recortes de uma vida
que me escapou entre os vincos dos dedos.

Quando eu cair não quero que me entregues a tua mão
e me roubes o rubor cálido de pele
que arranquei às nuvens, tão pouco
que negues aos quatro elementos
restos mortais de uma paixão
que também tu quiseste esquecer.
Eu, … e o vento.

- Porque choras meu anjo?
- Porque os mapas do paraíso levaram-te
dos mapas perdidos no meu espelho.

Daniela


[Fotografia de Sofia Calado]

Posted by Daniela e Jorge at 02:13:53 | Permalink | Comments (2)

Friday, June 23, 2006

Avô


[fotografia por mim]

São as tuas histórias que espero, ainda, de noite; e a tua voz continua tão longe. Nos meus sonhos, abraçar-te é mais fácil. É tão fácil. Volto a sentir a tua mão aconchegar-me as maçãs do rosto e a tua face desdobrar-se num sorriso.
“Conta-me uma história, deixo-te, hoje, escolher a que quiseres.” , pedia-te todas as noites que me trouxesses uma nova aventura ou uma bela história de amor daquelas que só os teus lábios me ensinavam. Sabia que a tua imagem me era negada pelas leis dos deuses mas foram tuas, as palavras que me fizeram sonhar quando era, ainda, uma criança. Implorava que voltassem e com elas que voltasses tu, avô.
A imagem… a imagem essa fazia-a eu com as memórias que me deixaste escondidas pelo sótão, para que quando eu fosse lá acima te encontrasse entre o cheiro amargo dos livros ressequidos na estante. Eram tantos. Pegavas em cada um deles de modo diferente. Dizias que em cada um se escondiam vidas fantasiadas pelos desejos frustrados de um homem. Para todos eles, sorrias.
Oh o sorriso. O sorriso afundado nos teus cabelos claros como neve eram uma visão doce de um Inverno esperado há muito. As rugas que trazias nas mãos contavam-te a vida espelhada no verde dos olhos cansados. E o corpo, vergado à fatalidade do destino entregava-se ao sofá gasto no canto do sotão. Era ali que me esperavas, todas as vezes que o sol desaparecia no horizonte e deixavas que as tuas palavras me embalassem com a noite.

Hoje, o sotão está vazio.  E os meus sonhos também.

Daniela

Posted by Daniela e Jorge at 21:38:47 | Permalink | Comments (1) »

Wednesday, April 12, 2006

Outros nomes…


[Fotografia por mim]


 

 esqueci-me dos nomes
que deixaste espalhados
a desarrumar a geometria
do quarto.

esqueci-me das flores
secas que morrem, ainda,
perto da janela.

esqueci-me do teu cheiro
nas dobras da cama,
do teu respirar ofegante
nas sombras do meu cabelo.

esqueci-me de mim
no vazio solitário
deste quarto.

Daniela

Posted by Daniela e Jorge at 22:02:22 | Permalink | No Comments »

Thursday, February 16, 2006

Dança comigo.

 
[ Fotografia por mim]

Dança comigo
Ajuda-me a embalar os meus sonhos
e girar à volta do arco iris
Esconde todas as cores na tua mão
e deixa-as fugir por aí…
Esquece o que é o tempo, a eternidade…

Dança comigo.

Daniela

Posted by Daniela e Jorge at 19:22:29 | Permalink | Comments (1) »

Saturday, February 11, 2006

Corpos

  [Fotografia por mim]

Existem outras línguas que se afogam na minha boca,
outras mãos que se perdem nos vales do meu corpo,
desejos que nascem de fantasias selvagens
e que fogem da minha boca num grito de prazer.

Existem copos partidos que dormem ao lado da cama,
uma garrafa vazia que desmaia juntos das escadas,
recordações de uma noite de prazer embriagante.

Existem sabores orgásmicos que morrem nos lábios,
roupas desarrumadas na madeira fria do chão.

Existem corpos…
Dois corpos cansados sobre o canto madrugador dos lençóis.

Daniela

Posted by Daniela e Jorge at 20:38:04 | Permalink | Comments (2)

Thursday, February 9, 2006

  [Fotografia por mim]

A tua ausência é fria
como a pedra morta do banco.

Daniela

Posted by Daniela e Jorge at 20:49:46 | Permalink | Comments (2)

Wednesday, February 8, 2006

“Eram apenas crianças. Duas meninas que brincavam juntas nos intervalos das aulas. Duas meninas que descobriam como a vida pode ser feliz e ao mesmo tempo tão inocente. Durante muitos anos, muitos eram os fins de tarde em que o sol desaparecia por entre as árvores daquela escola, e nós fugindo da confusão, subíamos àquela árvore, depois de um dia de aulas. Era como quebrar a rotina. E ali sentadas partilhávamos os nossos segredos e esperávamos que a tarde não terminasse mais. Até todo aquele momento ser quebrado com a chegada dos nossos pais e com um simples “até amanhã” que para cada uma de nós parecia eterno…”

Lembras-te disto? [:

Amo-te estrela minha.

Posted by Daniela e Jorge at 21:41:46 | Permalink | Comments (2)

Monday, February 6, 2006

Almas Vendidas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[Fotografia por mim]

A calçada da rua sempre foi tão negra
quanto agora e nem nos dias em que
o sol ansiava beijar as pedras frias
a bruma se dissipava entre corpos vadios.
O ranger dos saltos provocadores sempre
foi uma estória de desejos feridos sepultados
na beira da estrada.

O vento agreste sempre repudiou
as roupas que me sobrevivem no corpo,
rasgadas e cobertas de marcas de outros amantes
que buscavam em mim o prazer de uma
noite quente, desamparada no fundo de uma garrafa vazia.

Hoje, as memórias salgadas que os meus olhos
expulsam são de tempos distantes…
Dias em que os meus lábios se enchiam de cor
e provocação e o meu corpo se despia
quando a noite engolia o último raio de sol,
e o meu corpo se desenrolava numa dança orgásmica
de raiva por outros corpos, outros amores por ninguém,
e o meu corpo se deliciava com outro toque
que não o teu.

E o meu corpo…

O meu corpo…

Hoje, esses tempos de desejos carnais exacerbados
não se escrevem mais no regaço dos tecidos
que escondem um corpo gasto de uma prostituta.

O meu.

E como um nome esquecido entre as dobras
dos lençóis, o meu corpo quebra-se nos becos
da avenida que camuflam corpos dos quais
também a vida se esqueceu.
E refugiu-me com eles no seio rejeitado da cidade.

Hoje o meu nome é Ninguém.

Daniela

Posted by Daniela e Jorge at 20:50:48 | Permalink | Comments (2)

Wednesday, February 1, 2006

Sombras

 

O tempo corre tão depressa. Os dias mal se sentem nas sombras da pele. A percepção de um olhar desfoca-se entre as paisagens citadinas e os troncos das árvores torcem-se no rasgar de um pôr do sol.
As mãos de criança fugiram das escadas que levavam ao escorrega e os risos que ecoavam ao final da tarde são, agora, meros murmúrios do vento que vem de norte.  

E, é aqui que a saudade começa.

Daniela

 


[Fotografia tirada por mim naquele parque que me enche de saudade]
 

 

Posted by Daniela e Jorge at 21:06:59 | Permalink | Comments (2)

Friday, January 27, 2006

Rugas

Há tantas lágrimas. Lágrimas de quem se esqueceu, lágrimas dos que perdem, dos que vencem, dos que se entregam, dos que se escondem. Existem lágrimas de amor, de ódio, de saudade. Existem lágrimas.
Hoje a fotografia era a mesma. Desprovida de rugas ou qualquer abalo do tempo; apenas vestida com a sua inocência. Num dia em que corria pelos campos escondendo a relva debaixo dos seus pés, convidando o vento para a sua dança outonal. Com ela, as folhas rodopiavam e contavam estórias aos galhos nus que prendiam o sol. Com ela, as pregas do vestido a desordenarem-se sobre as pernas macias. Com ela, os caracóis doirados a cairem-lhe nos ombros.
Nada.
Hoje, nada.
A fotografia, no entanto, era a mesma.

Existem tantos sorrisos. Sorrisos de quem chega, de quem recebe um beijo, um abraço, uma lágrima. Existem sorrisos de crer, de olhar, de sentir. Tantos sorrisos de quem regressa, de quem lembra, de quem foge e se perde. E aquela menina também se perdera na mesma fotografia, tão só e tão bela. Um pedaço de eternidade guardado num pedaço de papel com a cor do tempo nas gavetas esquecidas do quarto.
Nada.
Hoje, nada.
E a fotografia, no entanto, continuava a ser a mesma.

Existem tantas memórias. Memórias de velhos tempos que os anos cerraram noutras realidades distantes, que se fundem com o presente tão frio. Existe a pele enrugada. Os olhos nublados, a voz cada vez mais fraca e os sons soam tão baixo na mente. A cor cálida nas nuvens que cai sobre os cabelos, anunciando meras pistas de uma viagem à terra prometida.
E, no entanto, aquela fotografia traz-me a criança que eu deixei no passado.
A inocência que a vida me roubou.

Daniela

Posted by Daniela e Jorge at 21:49:03 | Permalink | Comments (2)