Sunday, February 25, 2007

efémero.

O mundo lá fora gela. Mas aqui o cigarro é quente, a madeira e as palavras estão sobre a mesa. A mesa sustentando um cinzeiro onde jazem, já, alguns restos de noite. Ela também está cá dentro, tão presa a nós como o transe que começa a fazer efeito. 
Existe um homem recostado no canto do café. Tem uma expressão fria, sem enfase, nem contraste. É bom, é muito distante. Nos olhos parece trazer memórias de outros corpos invisiveis.
Já sinto aquela distância do meio. Não vejo, nem sinto. 
A noite acaba aqui.

Daniela e Diana
17-02-2007  Segóvia, Espanha 

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Monday, February 5, 2007

ser-te.

Sempre foi mais que ser-te
negando a existência de um eu.
Foram derrotas, perguntas, mágoa.
Deus sabe porque mas deu.

Entregou-me aos desejos momentâneos
arrastando meu corpo em vícios,
foram copos e cigarros gastos
corpos despindo artifícios.

E se hoje a algo me vergo
é a esse teu ser que sou eu,
essa alma que me ocupa o corpo;
o corpo que nunca foi meu.

Jorge Salgado
- A fotografia encontrei-a perdida por aqui. Peço imensas desculpas mas não sei quem é o autor.

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Friday, January 26, 2007

fins de nada.

Todos os dias o via no mesmo sítio. O mesmo corpo de cabelos grisalhos, coberto pelos restos de vidas passadas, sozinho e dormitando sobre o dia que ousara, também, passar por ele. Imagino-o todos os dias, atento aos nadas de vidas alheias, às brincadeiras de um grupo de crianças já cansadas da escola ou mesmo ao passear dos velhotes ao final da tarde. Faz deles mais que a vida, que já lhe vai roubando a força para mais um pôr do sol. Tem o olhar cansado das Estações, as mãos tão frias quanto o coração. Tem os lábios secos de palavras que não ousam sair, o rosto coberto por traços suaves que denunciam o passar de gerações.
Seus dias são tão vazios como os dias de Inverno em que o sol não vem para nos acariciar os pensamentos. Nada lhe resta senão as imagens das mesmas caras, das mesmas paisagens, das mesmas ausências. E para mim, depois de me levantar da cadeira do pequeno bar, não será muito mais que a memória do mendigo ausente que partilhei com o sabor quente do café.

Daniela 

 

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Monday, January 15, 2007

pai.

Sou um triste esquecido nas ruas,
aconchegado a palavras tuas
que guardava, quando de noite,
nada me restava senão a ponte
onde ainda te refugias.

 

Sei que és sombra, mero vulto
a mágoa que me arrasta o tumulto.
Mesmo assim, nunca te esqueci
e entre as lágrimas, permaneci aqui
como dantes esperava que voltasses.


Continuo sendo a criança atenta
ao um dia que, no horizonte, se ausenta,
à tua silhueta entre o arvoredo
que me trazia paz e levava o medo
de nunca mais te ver regressar.
 
Nada mais tenho, senão tua imagem
o fantasma que procuro junto à margem,
o nada que aumenta a saudade
e me faz recusar a eternidade
de uma vida que nunca foi coisa alguma.

Desde que partiste que é assim.
Não me resta nada se não me tenho a mim.




Palavras de
Jorge Salgado
Imagem de Daniela

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Monday, January 8, 2007

O homem do Café.

 

 

O mesmo corpo de sempre encostado à cadeira
de um café vagabundo nas ruas.
Os seus dias são sempre os mesmos,
entregues às horas que não existem
e às réstias de palavras nuas.

Sei-lhe a rotina de final de tarde,
as feições e os pensamentos camuflados;
reconheço a letra que ocupa as folhas velhas,
os versos tristes que lhe escorrem das mãos
e que como ele, ali ficam fechados.

Numa mão a caneta, na outra o cigarro
faminto de todos os dias
e copo de vinho para as primeiras palavras.
O resto é medo. São nomes. Histórias.
Recordações de noites frias.

Jorge Salgado     

 

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Wednesday, December 13, 2006

evasão.

Não são precisas palavras.
Contigo, elas não fazem sentido.
Esqueço o que está para além de nós.
Do nosso espaço, do nosso tempo.
O som do mar foi a nossa conversa.
O pôr do sol um frio pretexto de despedida.

O teu calor chegou-me através
de tudo o que não precisaste dizer.
Um “amo-te”. Um “não me deixes”.
Um “para sempre”.
O espelho de água sobre a areia
trouxe a noite e apagou o forte.

Depois de tudo fica a sombra.
A sombra que desce a rua até casa
num passo lento que não quer pisar
o chão de todos os dias.
Depois de tudo fica, apenas, a sombra.
A sombra que caminha sem o corpo
que ainda se delicia com
as últimas réstias de sol sobre a rocha.

Fotografia e palavras por Daniela

Posted by Daniela e Jorge in 21:54:29 | Permalink | Comments (4)

Tuesday, December 12, 2006

[i'll back you up]

Hoje apetece-me escrever-te.
Sem um nome, uma morada.
Debitar palavras e gastar uma folha
que provavelmente se perderá ao fundo da rua
ou nas mãos de alguém que queira ouvir
uma história de perdas e amores sonhados.
Quero enchê-la de ilusões
como de ilusões construi a minha vida,
como de ilusões te desenhei na minha cabeça.

Não sei quem és, ninguém sabe.
Talvez apenas o vazio que me enche o peito,
a lágrima cintilante que me desliza pelo rosto
ou os braços que espero de noite.
Talvez não sejas mesmo nada.
Talvez não me ouças.
Não me queiras.
Não existas.

Não sei.
Já não sei nada.

Palavras por Daniela
Fotografia por
Hugo

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Thursday, December 7, 2006

parto já sem ser.

 

Ficam os passos de quem parte já sem nome.
A lembrança de uma vida que deixou de ser.

Na sombra tenebrosa da cidade perdem-se seus movimentos
esquecem-se suas palavras e tudo o que foi.
As janelas que pisam a calçada não
se abrem para a silhueta, agora invisível que cai pelos carris
num desejo ínfimo de tocar a linha distante
que se afasta do outro lado da margem.

O peito, entristecido pelas feridas da idade
já não sente as estações que se perdem,
nem aquece à lareira em tardes frias.
Os lábios já sem cor, esqueceram as palavras,
as músicas de embalar guardadas para noites de lua cheia.
Os olhos, que afogados nas linhas fracas da pele,
contavam mil e uma histórias de saudade
de quem partiu vezes sem conta sem volta certa…
E o coração, que bate fraco já sem querer bater,
enterra-se no seu interior com uma pedra
massacrada pela força das marés que chegam sem aviso.

Já sem sentir, já sem saber…
entregue às ruelas esquecidas da morte.
 

Poema por Daniela
Fotografia por Alexandre P.

Posted by Daniela e Jorge in 21:37:04 | Permalink | Comments (3)

Monday, November 27, 2006

o farol.

chamo a tua sombra na noite,
como um desejo escondido sob os lençóis.
o teu silêncio, espero-o para me acalmar as palavras
guardadas há tanto tempo no fundo de uma gaveta
para que tu, viajante sem rumo, as tomes
e com elas teças o caminho
de mais uma
dessas viagens que sempre acabam na linha do horizonte .

posso nunca saber o teu nome.
posso querer-te mesmo sem te querer.
que essa paixão que o vento carrega,
que as marés trazem no medonho das ondas
não é mais que a saudade que se tranca
sob o tecto de quem te vê, de novo, partir.
que se arraste nas brumas que dormem sobre o mar
este amor que me consome e é tão só,

como só está a cama em que esqueces as tempestades.

 

nunca te perguntaste nas tuas viagens,
oh, estranho viajante, de quem eram as lágrimas
que o teu barco pisava quando eram outras
as rotas do teu destino?
nunca te perguntaste de quem eram os gritos

que pareciam surgir do fundo do mar
como se as marés aniquilassem um resto

de vida presente num corpo?


 

espero um anúncio de ti sob o mar.
aqui, na orla da praia,
enquanto as ondas se desdobram na saudade

sou a silhueta distorcida que tempo apagou.
um corpo, um raio de luz.

o teu farol.

Daniela

[não sei se ainda sei fazê-lo...]

Posted by Daniela e Jorge in 18:40:06 | Permalink | Comments (3)

Saturday, November 25, 2006

Carta

Assim soubeses tu compreender o teu dever de seres meramente o sonho de um sonhador. Seres apenas o turíbuo da catedral dos devaneios. Talhares os teus gestos como sonhos, para que fossem apenas janelas abertas para paisagens novas da tua alma. De tal modo arquitectar o teu corpo em arremedos de sonho que não fora possível ver-te sem pensar noutra coisa, que lembrasses tudo menos tu própria, que ver-te fosse ouvir músioca e atravessar, sonâmulo, grandes paisagens de lagos mortos, vagas florestas silenciosas perdidas ao fundo doutras épocas, onde invisíveis pares diversos vivem sentimentos que não temos.
Eu não te quereria para nada senão para te não ter. Queria que, sonhando eu e se tu aparecesses, eu pudesse imaginar-me ainda sonhando - nem te vendo talvez, mas talvez reparando que  o luar enchera de [] os lagos mortos e que ecos de canções ondeavam subitamente na grande floresta inexplícita, perdida em épocas impossíveis.
A visão de ti seria o leito onde a minha alma adormecesse, criança doente, para sonhar outra vez com outro céu. Falares? Sim, mas que ouvir-te fosse não te ouvir mas ver grandes pontes ao luar ligar as duas margens escuras do rio que vai ter ao ancião mar onde as caravelas são nossas para sempre.
Sorris? Eu não sabia disso, mas nos meus céus interiores andavam as estrelas. Chamas-me dormindo. Eu não reparava nisso mas no barco longínquo cuja vela de sonho ia sob o luar, vejo longínquas marinhas.

Imagem - Daniela
Palavras - Fernando Pessoa in Livro Do Desassossego

Posted by Daniela e Jorge in 12:32:10 | Permalink | Comments (2)