relógio febril.
Sinto as minhas pernas fundirem-se com o mármore da varanda. Lá fora urge o tempo, encadeiam-se s movimentos em espirais intermináveis de acções.
Corropiam pelo espaço as pessoas. As caras cansadas de dias rotineiros que terminam sempre do mesmo modo. A fadiga é uma atmosfera comum. Pegajosa e febril.
Observo as expressões. Os olhares arrastados e os gestos vazios. Ali, junto à igreja uma mulher caminha bem junto à parede. Diria que faz dela o purgatório dos seus medos, o refúgio de uma vida. Cruzando-se com ela, um homem, já de olhar grisalho embrulha nas suas mãos um saco cheio de anestesias químicas para as doenças da idade. Não se conhecem mas partilham um momento comum.
Do outro lado da rua duas mulheres de pouca idade conversam alegremente. Partilham a mesma revista bisbilhoteira que, talvez traga uma mão cheia de vida da alta sociedade. Quase que consigo ouvir as suas vozes… Outro homem. Este sentado num banco de jardim, partilhando com o seu cigarro as frustrações da idade. As rugas escorregam-lhe pela pele como marcas temporais de tudo o que se escreve no tempo. O relógio, esqueceu-o. Há muito que o entristece. Talvez pense na mulher que já o deixou, talvez nos filhos que se deixam emaranhados pela vida que os consome, ou apenas que a sua vida não passou de um pré-requisito para o orgulho da família que também já, quase, não existe.
Uma mulher e uma criança. Andam pelas ruas com alguns sacos de materialismos, sem deixar de pensar na hora do jantar em família, marcado para as oito. Os relógios marcam o compasso dos gestos, a regularidade dos dias. A presença do marido, a conversa do tempo que passou por um dia, a boa nota, o mau comportamento, o artigo que mais se vendeu, o casaco que fazia falta para o Inverno, as contas que se juntam na gaveta, o dinheiro para os filhos, para o carro, a casa… Rotina. Dias.
O trânsito moderado que chama uma buzina aqui e ali, o sol quente que apaga um novo ciclo e a brisa que me traz as vidas dormentes da cidade ao entardecer. Tantas caras, tantos recortes desta existência. Tantas palavras que ficam por dizer, mesmo agora, quando o tempo em mim pára. As vidas fluem debaixo do meu olhar, sem sequer saberem que por um momento existe alguém parado no presente, imaginando tudo o que os trouxe aqui.
Hoje o meu corpo foi a brisa que deambulava pelas ruas. O peso de um suspiro.
Corropiam pelo espaço as pessoas. As caras cansadas de dias rotineiros que terminam sempre do mesmo modo. A fadiga é uma atmosfera comum. Pegajosa e febril.
Observo as expressões. Os olhares arrastados e os gestos vazios. Ali, junto à igreja uma mulher caminha bem junto à parede. Diria que faz dela o purgatório dos seus medos, o refúgio de uma vida. Cruzando-se com ela, um homem, já de olhar grisalho embrulha nas suas mãos um saco cheio de anestesias químicas para as doenças da idade. Não se conhecem mas partilham um momento comum.
Do outro lado da rua duas mulheres de pouca idade conversam alegremente. Partilham a mesma revista bisbilhoteira que, talvez traga uma mão cheia de vida da alta sociedade. Quase que consigo ouvir as suas vozes… Outro homem. Este sentado num banco de jardim, partilhando com o seu cigarro as frustrações da idade. As rugas escorregam-lhe pela pele como marcas temporais de tudo o que se escreve no tempo. O relógio, esqueceu-o. Há muito que o entristece. Talvez pense na mulher que já o deixou, talvez nos filhos que se deixam emaranhados pela vida que os consome, ou apenas que a sua vida não passou de um pré-requisito para o orgulho da família que também já, quase, não existe.
Uma mulher e uma criança. Andam pelas ruas com alguns sacos de materialismos, sem deixar de pensar na hora do jantar em família, marcado para as oito. Os relógios marcam o compasso dos gestos, a regularidade dos dias. A presença do marido, a conversa do tempo que passou por um dia, a boa nota, o mau comportamento, o artigo que mais se vendeu, o casaco que fazia falta para o Inverno, as contas que se juntam na gaveta, o dinheiro para os filhos, para o carro, a casa… Rotina. Dias.
O trânsito moderado que chama uma buzina aqui e ali, o sol quente que apaga um novo ciclo e a brisa que me traz as vidas dormentes da cidade ao entardecer. Tantas caras, tantos recortes desta existência. Tantas palavras que ficam por dizer, mesmo agora, quando o tempo em mim pára. As vidas fluem debaixo do meu olhar, sem sequer saberem que por um momento existe alguém parado no presente, imaginando tudo o que os trouxe aqui.
Hoje o meu corpo foi a brisa que deambulava pelas ruas. O peso de um suspiro.
Daniela
Posted by
at
02:42:02
A tua escrita é verdadeiramente boa!
Conheces José Luis Peixoto?
muito bonito seu texto…aliás a maioria deles é extremamente interessante…a escolha das palavras organizadas de uma forma brilhante.