Friday, January 26, 2007

fins de nada.

Todos os dias o via no mesmo sítio. O mesmo corpo de cabelos grisalhos, coberto pelos restos de vidas passadas, sozinho e dormitando sobre o dia que ousara, também, passar por ele. Imagino-o todos os dias, atento aos nadas de vidas alheias, às brincadeiras de um grupo de crianças já cansadas da escola ou mesmo ao passear dos velhotes ao final da tarde. Faz deles mais que a vida, que já lhe vai roubando a força para mais um pôr do sol. Tem o olhar cansado das Estações, as mãos tão frias quanto o coração. Tem os lábios secos de palavras que não ousam sair, o rosto coberto por traços suaves que denunciam o passar de gerações.
Seus dias são tão vazios como os dias de Inverno em que o sol não vem para nos acariciar os pensamentos. Nada lhe resta senão as imagens das mesmas caras, das mesmas paisagens, das mesmas ausências. E para mim, depois de me levantar da cadeira do pequeno bar, não será muito mais que a memória do mendigo ausente que partilhei com o sabor quente do café.

Daniela 

 

Posted by Daniela e Jorge at 22:42:13 | Permalink | Comments (2)

Monday, January 15, 2007

pai.

Sou um triste esquecido nas ruas,
aconchegado a palavras tuas
que guardava, quando de noite,
nada me restava senão a ponte
onde ainda te refugias.

 

Sei que és sombra, mero vulto
a mágoa que me arrasta o tumulto.
Mesmo assim, nunca te esqueci
e entre as lágrimas, permaneci aqui
como dantes esperava que voltasses.


Continuo sendo a criança atenta
ao um dia que, no horizonte, se ausenta,
à tua silhueta entre o arvoredo
que me trazia paz e levava o medo
de nunca mais te ver regressar.
 
Nada mais tenho, senão tua imagem
o fantasma que procuro junto à margem,
o nada que aumenta a saudade
e me faz recusar a eternidade
de uma vida que nunca foi coisa alguma.

Desde que partiste que é assim.
Não me resta nada se não me tenho a mim.




Palavras de
Jorge Salgado
Imagem de Daniela

Posted by Daniela e Jorge at 21:37:54 | Permalink | Comments (2)

Monday, January 8, 2007

O homem do Café.

 

 

O mesmo corpo de sempre encostado à cadeira
de um café vagabundo nas ruas.
Os seus dias são sempre os mesmos,
entregues às horas que não existem
e às réstias de palavras nuas.

Sei-lhe a rotina de final de tarde,
as feições e os pensamentos camuflados;
reconheço a letra que ocupa as folhas velhas,
os versos tristes que lhe escorrem das mãos
e que como ele, ali ficam fechados.

Numa mão a caneta, na outra o cigarro
faminto de todos os dias
e copo de vinho para as primeiras palavras.
O resto é medo. São nomes. Histórias.
Recordações de noites frias.

Jorge Salgado     

 

Posted by Daniela e Jorge at 20:46:15 | Permalink | Comments (1) »