fins de nada.
Todos os dias o via no mesmo sítio. O mesmo corpo de cabelos grisalhos, coberto pelos restos de vidas passadas, sozinho e dormitando sobre o dia que ousara, também, passar por ele. Imagino-o todos os dias, atento aos nadas de vidas alheias, às brincadeiras de um grupo de crianças já cansadas da escola ou mesmo ao passear dos velhotes ao final da tarde. Faz deles mais que a vida, que já lhe vai roubando a força para mais um pôr do sol. Tem o olhar cansado das Estações, as mãos tão frias quanto o coração. Tem os lábios secos de palavras que não ousam sair, o rosto coberto por traços suaves que denunciam o passar de gerações.
Seus dias são tão vazios como os dias de Inverno em que o sol não vem para nos acariciar os pensamentos. Nada lhe resta senão as imagens das mesmas caras, das mesmas paisagens, das mesmas ausências. E para mim, depois de me levantar da cadeira do pequeno bar, não será muito mais que a memória do mendigo ausente que partilhei com o sabor quente do café.
Daniela