Wednesday, December 13, 2006

evasão.

Não são precisas palavras.
Contigo, elas não fazem sentido.
Esqueço o que está para além de nós.
Do nosso espaço, do nosso tempo.
O som do mar foi a nossa conversa.
O pôr do sol um frio pretexto de despedida.

O teu calor chegou-me através
de tudo o que não precisaste dizer.
Um “amo-te”. Um “não me deixes”.
Um “para sempre”.
O espelho de água sobre a areia
trouxe a noite e apagou o forte.

Depois de tudo fica a sombra.
A sombra que desce a rua até casa
num passo lento que não quer pisar
o chão de todos os dias.
Depois de tudo fica, apenas, a sombra.
A sombra que caminha sem o corpo
que ainda se delicia com
as últimas réstias de sol sobre a rocha.

Fotografia e palavras por Daniela

Posted by Daniela e Jorge in 21:54:29 | Permalink | Comments (4)

Tuesday, December 12, 2006

[i'll back you up]

Hoje apetece-me escrever-te.
Sem um nome, uma morada.
Debitar palavras e gastar uma folha
que provavelmente se perderá ao fundo da rua
ou nas mãos de alguém que queira ouvir
uma história de perdas e amores sonhados.
Quero enchê-la de ilusões
como de ilusões construi a minha vida,
como de ilusões te desenhei na minha cabeça.

Não sei quem és, ninguém sabe.
Talvez apenas o vazio que me enche o peito,
a lágrima cintilante que me desliza pelo rosto
ou os braços que espero de noite.
Talvez não sejas mesmo nada.
Talvez não me ouças.
Não me queiras.
Não existas.

Não sei.
Já não sei nada.

Palavras por Daniela
Fotografia por
Hugo

Posted by Daniela e Jorge in 21:47:22 | Permalink | Comments (1) »

Thursday, December 7, 2006

parto já sem ser.

 

Ficam os passos de quem parte já sem nome.
A lembrança de uma vida que deixou de ser.

Na sombra tenebrosa da cidade perdem-se seus movimentos
esquecem-se suas palavras e tudo o que foi.
As janelas que pisam a calçada não
se abrem para a silhueta, agora invisível que cai pelos carris
num desejo ínfimo de tocar a linha distante
que se afasta do outro lado da margem.

O peito, entristecido pelas feridas da idade
já não sente as estações que se perdem,
nem aquece à lareira em tardes frias.
Os lábios já sem cor, esqueceram as palavras,
as músicas de embalar guardadas para noites de lua cheia.
Os olhos, que afogados nas linhas fracas da pele,
contavam mil e uma histórias de saudade
de quem partiu vezes sem conta sem volta certa…
E o coração, que bate fraco já sem querer bater,
enterra-se no seu interior com uma pedra
massacrada pela força das marés que chegam sem aviso.

Já sem sentir, já sem saber…
entregue às ruelas esquecidas da morte.
 

Poema por Daniela
Fotografia por Alexandre P.

Posted by Daniela e Jorge in 21:37:04 | Permalink | Comments (3)