Monday, November 27, 2006

o farol.

chamo a tua sombra na noite,
como um desejo escondido sob os lençóis.
o teu silêncio, espero-o para me acalmar as palavras
guardadas há tanto tempo no fundo de uma gaveta
para que tu, viajante sem rumo, as tomes
e com elas teças o caminho
de mais uma
dessas viagens que sempre acabam na linha do horizonte .

posso nunca saber o teu nome.
posso querer-te mesmo sem te querer.
que essa paixão que o vento carrega,
que as marés trazem no medonho das ondas
não é mais que a saudade que se tranca
sob o tecto de quem te vê, de novo, partir.
que se arraste nas brumas que dormem sobre o mar
este amor que me consome e é tão só,

como só está a cama em que esqueces as tempestades.

 

nunca te perguntaste nas tuas viagens,
oh, estranho viajante, de quem eram as lágrimas
que o teu barco pisava quando eram outras
as rotas do teu destino?
nunca te perguntaste de quem eram os gritos

que pareciam surgir do fundo do mar
como se as marés aniquilassem um resto

de vida presente num corpo?


 

espero um anúncio de ti sob o mar.
aqui, na orla da praia,
enquanto as ondas se desdobram na saudade

sou a silhueta distorcida que tempo apagou.
um corpo, um raio de luz.

o teu farol.

Daniela

[não sei se ainda sei fazê-lo...]

Posted by Daniela e Jorge at 18:40:06 | Permalink | Comments (3)

Saturday, November 25, 2006

Carta

Assim soubeses tu compreender o teu dever de seres meramente o sonho de um sonhador. Seres apenas o turíbuo da catedral dos devaneios. Talhares os teus gestos como sonhos, para que fossem apenas janelas abertas para paisagens novas da tua alma. De tal modo arquitectar o teu corpo em arremedos de sonho que não fora possível ver-te sem pensar noutra coisa, que lembrasses tudo menos tu própria, que ver-te fosse ouvir músioca e atravessar, sonâmulo, grandes paisagens de lagos mortos, vagas florestas silenciosas perdidas ao fundo doutras épocas, onde invisíveis pares diversos vivem sentimentos que não temos.
Eu não te quereria para nada senão para te não ter. Queria que, sonhando eu e se tu aparecesses, eu pudesse imaginar-me ainda sonhando - nem te vendo talvez, mas talvez reparando que  o luar enchera de [] os lagos mortos e que ecos de canções ondeavam subitamente na grande floresta inexplícita, perdida em épocas impossíveis.
A visão de ti seria o leito onde a minha alma adormecesse, criança doente, para sonhar outra vez com outro céu. Falares? Sim, mas que ouvir-te fosse não te ouvir mas ver grandes pontes ao luar ligar as duas margens escuras do rio que vai ter ao ancião mar onde as caravelas são nossas para sempre.
Sorris? Eu não sabia disso, mas nos meus céus interiores andavam as estrelas. Chamas-me dormindo. Eu não reparava nisso mas no barco longínquo cuja vela de sonho ia sob o luar, vejo longínquas marinhas.

Imagem - Daniela
Palavras - Fernando Pessoa in Livro Do Desassossego

Posted by Daniela e Jorge at 12:32:10 | Permalink | Comments (2)

Thursday, November 16, 2006

pure morning.

as luzes da cidade parecem cair sobre os carros que ainda dançam na penumbra madrugadora das ruas. com eles vão-se as últimas danças, os últimos olhares, as últimas sombras.
os sonhos, pedaços de noite,  desarrumam-se pelas esquinas como cartas deixadas sem um nome. não existe ninguém. não existem corpos que se arrastem pelas calçadas, afogados em sabores amargos de uma garrafa de vinho ou de um cigarro. não existem as vozes amontoadas umas nas outras como uma órgia de palavras gastas. não existe o barulho dos saltos altos, o brilho das purpurinas, nem os tons mais carregados de um batôn esbatido num pedaço de roupa. os corpos que se fundiram na noite, jazem agora em camas estranhas.   satisfeitos.   cansados… enquanto a manhã se anuncia na podridão da cidade.

daniela

[depois de tanto tempo... as palavras ainda são inseguras. secam nos cantos dos lábios.]

Posted by Daniela e Jorge at 22:01:19 | Permalink | Comments (2)

Saturday, November 11, 2006

utopia.

podia dar-te um nome e esperar
que dele nunca te esquecesses.
mas dei-te mais que isso.
dei-te mais que a alma.
que o tempo.
que a eternidade.

sabes o que é a palavra amar?

[morreram-me as palavras.]

Daniela

Posted by Daniela e Jorge at 23:36:27 | Permalink | Comments (6)

Tuesday, November 7, 2006

nosso.


[fotografias por mim]

há sítios que nos prendem, tardes que marcam um dia.
e depois de tudo, as saudades ficam.

daniela

Posted by Daniela e Jorge at 21:42:14 | Permalink | Comments (3)

Wednesday, November 1, 2006

hoje não sei que escrever. as palavras morrem secas aos cantos dos lábios e toda a tinta que escorregaria pelo regaço de uma folha de papel secou mesmo antes dos sentimentos fazerem mover-me a mão. talvez seja por isso e só por isso este espaço jaz vazio.

daniela

Posted by Daniela e Jorge at 17:00:20 | Permalink | Comments (1) »