Carta

[Fotografia por mim]
Sabes amor, hoje lembrei-me de ti ao acordar.
A colcha da minha cama continuava desarrumada, como da última vez que nos deitámos sobre ela e a aparelhagem continuava a tocar aquela música que me cantavas infinitas vezes antes de dormir. Ah a tua voz, tão doce a cair-me pelos cabelos encaracolados nos teus dedos.
Nunca mais usei aquele quarto desde que partiste. É como se ainda lá estivesses. O teu corpo caído sobre a cama, a luz que apenas delineava os contornos de dois corpos, o perfume que se espalhava pelo espaço, a música que não parava. Não parava nunca. Por vezes, achei ouvir-te deambular pelo quarto, pelas escadas que encaracolam até ao sótão e te levavam, dizias, àquele mundo de histórias antigas enterradas em baús e caixas velhas.
Mas hoje foi diferente. Era a tua voz que me acordava. Talvez fosse um pedaço de um sonho ou talvez, lá desse canto do mundo, me chamasses e tal como eu sentisses a minha falta. No entanto, era uma voz doce, como sempre era a tua voz quando me deitavas do teu lado e me contavas o quanto gostavas de estar comigo.
”Desta vez não tive medo de me despedir de ti, não fiquei triste por partir. Sei que quando voltar vais esperar-me da mesma maneira. E eu vou sempre voltar. Sempre.”
Daniela

