Friday, June 23, 2006

Avô


[fotografia por mim]

São as tuas histórias que espero, ainda, de noite; e a tua voz continua tão longe. Nos meus sonhos, abraçar-te é mais fácil. É tão fácil. Volto a sentir a tua mão aconchegar-me as maçãs do rosto e a tua face desdobrar-se num sorriso.
“Conta-me uma história, deixo-te, hoje, escolher a que quiseres.” , pedia-te todas as noites que me trouxesses uma nova aventura ou uma bela história de amor daquelas que só os teus lábios me ensinavam. Sabia que a tua imagem me era negada pelas leis dos deuses mas foram tuas, as palavras que me fizeram sonhar quando era, ainda, uma criança. Implorava que voltassem e com elas que voltasses tu, avô.
A imagem… a imagem essa fazia-a eu com as memórias que me deixaste escondidas pelo sótão, para que quando eu fosse lá acima te encontrasse entre o cheiro amargo dos livros ressequidos na estante. Eram tantos. Pegavas em cada um deles de modo diferente. Dizias que em cada um se escondiam vidas fantasiadas pelos desejos frustrados de um homem. Para todos eles, sorrias.
Oh o sorriso. O sorriso afundado nos teus cabelos claros como neve eram uma visão doce de um Inverno esperado há muito. As rugas que trazias nas mãos contavam-te a vida espelhada no verde dos olhos cansados. E o corpo, vergado à fatalidade do destino entregava-se ao sofá gasto no canto do sotão. Era ali que me esperavas, todas as vezes que o sol desaparecia no horizonte e deixavas que as tuas palavras me embalassem com a noite.

Hoje, o sotão está vazio.  E os meus sonhos também.

Daniela

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Tuesday, June 20, 2006

O fim de um sonho


[Fotografia por José Lopes]

Chega-me o cheiro das amoras
que se balançam alegremente nos ramos
e o ar que despenteia os prados
traz-me melodias de outros encontros.

Se chegasses pelo Verão,
verias como as cores que cobrem
as amendoeiras junto à casa
enchem o jardim de sabores.

Um doce. Meia dúzia de palavras.

Os meus sonhos trazem-te de novo
aos cantos fantasiados da casa. 
Só te peço para que  quando
chegares não batas à porta;
não assustes as palavras que guardei
entre os lábios para te receber,
nem os desejos que deixei
pendurados nas dobras do vestido.

Um beijo. Uma carícia.
Um amo-te encerrado em dois corpos. Uma alma.

[...]

Daniela

Posted by Daniela e Jorge at 21:17:13 | Permalink | Comments (1) »

Saturday, June 10, 2006

Lenda


[Fotografia por Adriano Baptista]

Desfizémos a casa com nossos desejos.

Hoje de manhã, quando acordei
já não havia o teu corpo sobre o meu,
nem vestígios dos teus dedos
nos desenhos do meu corpo;
apenas um conjunto de vincos solitários
nos lençóis brancos que me ocupavam a cama.

Sussuram-me a tua ausência pela manhã,
como quem conta um desses grandes romances
probidos pelo tempo e pelo destino,
uma história guardada pelos deuses,
perdida nos recantos da eternidade.

Os copos vazios continuavam estendidos no chão
e aquele céu estrelado que ocupara a janela,
rápido se tornou num halo de luz quente.
O teu nome ainda se escrevia em todas as paredes
como uma lenda que perdura
para ser ensinada a quem vem.

Li o bilhete que deixaste morrer em cima da mesa.

“Não temas o vazio dos lençóis,
e não ouças as mentiras que te contam.
Voltarei assim que o destino o entenda…
mas não te deixo, não te deixo nunca.”

[...]

Daniela

Posted by Daniela e Jorge at 22:54:36 | Permalink | Comments (4)

Thursday, June 8, 2006

promessas.

ficava aqui até anoitecer a ouvir as histórias que os teus lábios me trazem. o calor do teu corpo do lado do meu. o brilho dos teus olhos. o “amo-te”, o “fico contigo para sempre”. adormeço com eles.

[é o tempo que passa sobre nós (': obrigada por tudo]

Daniela

Posted by Daniela e Jorge at 22:49:15 | Permalink | Comments (1) »

Tuesday, June 6, 2006

fim.


[fotografia por Lara Pires e modificações por mim]

traz-me as palavras que o inverno te arrancou

deixa-as espalhadas pela colcha

para que a manhã as entregue,

de novo, aos cantos deste quarto.

grava-as no meu peito outra vez

e assina com um beijo.


se quiseres entrega-me as lágrimas

que guardaste do outro lado da janela,

escondendo ao mundo que, também tu

morreste por amor.

 

[...]

- não me apetece que tenha um fim-

 

Daniela

Posted by Daniela e Jorge at 20:41:37 | Permalink | Comments (2)