Sunday, January 29, 2006

Espaços vazios

Perdi a conta de quantas lágrimas deixei morrer na pedra gelada da minha janela. Os dias, não atravessam mais as cortinas do meu quarto e o sol que fugiu das rotas dos meus horizontes, não afaga mais o meu corpo no calor dos seus beijos.
O ranger das gavetas que vivem na estante ao lado da cama, são a única música que me envolve, quando os teus braços se perderam nas brumas dos meus sonhos e os teus lábios mordem outros desejos. As cartas que deixo escritas na vidraça, são meras palavras que desejei entregar-te no teu regresso. Mas a noite é tão fria…
E tu… e tu, que nunca mais voltas.

Já tiveste sonhos vazios? Os meus morrem assim.

[Texto e imagem por mim]

Daniela

Posted by Daniela e Jorge at 16:54:20 | Permalink | Comments (6)

Friday, January 27, 2006

Rugas

Há tantas lágrimas. Lágrimas de quem se esqueceu, lágrimas dos que perdem, dos que vencem, dos que se entregam, dos que se escondem. Existem lágrimas de amor, de ódio, de saudade. Existem lágrimas.
Hoje a fotografia era a mesma. Desprovida de rugas ou qualquer abalo do tempo; apenas vestida com a sua inocência. Num dia em que corria pelos campos escondendo a relva debaixo dos seus pés, convidando o vento para a sua dança outonal. Com ela, as folhas rodopiavam e contavam estórias aos galhos nus que prendiam o sol. Com ela, as pregas do vestido a desordenarem-se sobre as pernas macias. Com ela, os caracóis doirados a cairem-lhe nos ombros.
Nada.
Hoje, nada.
A fotografia, no entanto, era a mesma.

Existem tantos sorrisos. Sorrisos de quem chega, de quem recebe um beijo, um abraço, uma lágrima. Existem sorrisos de crer, de olhar, de sentir. Tantos sorrisos de quem regressa, de quem lembra, de quem foge e se perde. E aquela menina também se perdera na mesma fotografia, tão só e tão bela. Um pedaço de eternidade guardado num pedaço de papel com a cor do tempo nas gavetas esquecidas do quarto.
Nada.
Hoje, nada.
E a fotografia, no entanto, continuava a ser a mesma.

Existem tantas memórias. Memórias de velhos tempos que os anos cerraram noutras realidades distantes, que se fundem com o presente tão frio. Existe a pele enrugada. Os olhos nublados, a voz cada vez mais fraca e os sons soam tão baixo na mente. A cor cálida nas nuvens que cai sobre os cabelos, anunciando meras pistas de uma viagem à terra prometida.
E, no entanto, aquela fotografia traz-me a criança que eu deixei no passado.
A inocência que a vida me roubou.

Daniela

Posted by Daniela e Jorge at 21:49:03 | Permalink | Comments (2)

Tuesday, January 24, 2006

Sabores

A tarde de hoje soube-me a chocolate. Ou talvez não. Talvez tenha sido a frutos silvestres, ou pêssego… talvez tenha simplesmente sido deliciosa.
O elétrico lá se afundava no meio de tantas árvores, mas desta vez era diferente. Talvez da cor do céu, talvez do gelo que embebia o ar. Talvez do silêncio ensurdecedor, talvez do refugio do sol. Subi as escadas e entrei. Como sempre, pedi o meu café e deixei-me levar pela bela música que me chegava aos ouvidos. Céus que música tão orgásmica. Mas desta vez também ela me soava diferente. Talvez fosse só o café que estivesse mais doce, ou o pau de canela que fosse de qualidade diferente. Ou ainda, o fumo dos cigarros que dançava à minha frente fosse o culpado da embriaguez dos meus sentidos. Paguei e saí. Desci as escadas e era o mesmo gato que me esperava ao fundo, o mesmo que comboio que passava àquela hora tão certeira.
Tudo parecia tão diferente. Nem mesmo o escorrega era o mesmo. Parecia recheado de infâncias partilhadas nos mesmo sítios, vividas numa realidade temporal tão igual. Os risos de crianças pareciam vir das árvores e diambular na minha cabeça.Ou não? Não…shhh. Ouve! Não, não pode ser. Os risos não caem das árvores, nem pertencem a outras vidas. Talvez tudo seja um sonho.
Ou talvez tudo seja perfeito quando tu estás ali.

Amo-te minha estrela [:

Daniela

Posted by Daniela e Jorge at 21:08:56 | Permalink | Comments (1) »

Tuesday, January 17, 2006

Talvez o tempo passe sem se lembrar de mim, ou talvez esquecendo-me.
E que sou eu?
Quem me pôs aqui, porquê?

Anda com essa bosta, leva-me para casa.

Posted by Daniela e Jorge at 21:58:04 | Permalink | Comments (1) »

Thursday, January 12, 2006

Música

As chaves continuam no mesmo sítio
contando histórias à madeira da mesa
adormecida no canto do corredor.
Nem as janelas se desenrolam
nas palavras dobradas dos quartos,
nem a luz das velas cobre mais
o odor do pó que, aqui habita.

As estrelas não presenciam mais
os meus dias e as noites são
esquecimentos breves do meu corpo
sob a pedra fria do jardim.

Tenho tantas saudades dos teus caracóis
Agora que olho os troncos ramificados
das árvores, já nem as estações
cobrem os campos com metamorfoses de
cores vivas e o baloiço escondido
no interior do jardim apenas sente
as mãos frias do vento.

No entanto, meu anjo, o sol acabou de
romper o tom avermelhado das cortinas do
nosso quarto e eu espero pela música
dos teus passos na madeira das escadas.

Daniela

[ Imagem - direitos de autor - Abagorro  modificações no photoshop by me]

Posted by Daniela e Jorge at 19:12:39 | Permalink | No Comments »

Monday, January 9, 2006

Mundos paralelos

Falar sozinha começa-se a tornar um hábito e as conversas que tenho comigo até chegam a ser interessantes (ou ridículas). Depois de lamber os restos do sabor do café que me aqueciam os lábios, agora gretados pelo frio de janeiro, e de ter umas quantas conversas meio filosóficas, a minha cabeça não descansou sobre algumas questões.
O facto de existirem mundos paralelos foi algo que sempre me ocupou um pouco a cabeça e talvez comece  a tornar-se algo que me faz parar e pensar um pouco sobre o assunto. Mesmo que para isso tenha de afundar os meus pensamentos numa chávena de qualquer coisa bem quente que me dê um abanão nos habitantes mais disponíveis do meu cérebro.
Era o meu reflexo que habitava o pedaço de janela a meu lado. O autocarro esperava a entrada de outros seres e eu ia olhando para mim e pensando o que era aquele reflexo. Se era ele que existia, se era eu. Pensei que o café me tinha feito mal… mero acaso. A noite já me ia escurecendo os pensamentos e as teorias questionavam-se umas às outras.
Olhei todos à minha volta. Pelo menos os quatro que adormeciam nos bancos mais próximos. Alguém atrás de mim tinha uma conversa pelo telefone meio desinteressante…ok não tenho nada a ver com isso. Nem mesmo com os que estavam à minha frente… Estupidez.
Os prédios fugiam-me pelo vidro, e as árvores pareceram-me planos [no pedaço que tentei fechar a mente a conceitos previamente estipulados], os carros habitavam as ruas como desenhos de cidades que, também, adormeciam com o dia.
Lembrei das questões [quando ainda me deliciava com o café quente e pequenos golos do teu leite com chocolate] que puseste. Quem me diz que todos eles são seres inanimados ou mesmo o contrário? Quem me prova que eles não existiam realmente? O que é existir? Ser?
Conceitos, conceitos e mais conceitos. Palpável, sabor, tacto, visão…Sentidos. Todo um conjunto de coisas que me encurralavam em fotografias do desconhecido.

Sonhos. Desci do autocarro com esta palavra na cabeça. Sonhos. Mundos paralelos. Plim…porque não?
Formei a minha tese sustentada apenas pelo o efeito da cafeína ou talvez não.
De noite morremos para este mundo e abrimos as portas para qualquer tipo de universos. Ok… Isto está confuso. É como se nascêssemos para realidades completamente diferentes e nessas tivéssemos uma vida paralela a esta, num espaço temporal diferente mas ao mesmo tempo igual. Então quando voltamos a este mundo, ao nosso por definição, temos meros vislumbres [e é quando os temos] do que se passou. É como se fosse uma história em aberto.
Talvez do outro lado tenhamos uma vida, um ideal ou um conjunto deles. Talvez nesse mundo tenhamos os mesmo pensamentos, as mesmas regras ou talvez não.
”Bolas Dany, de novo a falar sozinha! Deixa-te disso”, pensei.
E numa quebra da sequência de pensamentos tirei as chaves da mala e entrei em casa.

 

Posted by Daniela e Jorge at 21:17:09 | Permalink | Comments (5)

Friday, January 6, 2006

Palavras desdobradas


[Imagem direitos de autor - Daniela]

Os caracóis de folhas que desabam sob a
minha cadeira são danças que o vento
embalou com as suas artes gélidas.
O barulho do comboio lá em cima aconchega-me
a mente e adormece o sabor do café que me
adocica os lábios, agora quentes.
As pessoas movimentam-se nas ruas que se
afogam a meus pés e deixam que um universo
de cheiros se enrole no meu corpo e
me embriague os sentidos.

A chuva que bate no vidro a meu lado, são
imagens que o tempo deixou gravadas
noutras histórias.
As folhas nada me contam e a seiva que nelas
corre não alimenta os meus sonhos.

A noite caiu no pedaço de janela que me
mostrava pedaços de vida
e o café secou na minha chávena.
As palavras morreram nas minhas mãos
e o caderno selou o meu lugar.

Levantei-me e deixei desdobradas
as minhas palavras sobre a mesa.

Daniela

Posted by Daniela e Jorge at 20:32:30 | Permalink | Comments (2)